Toda personagem, em algum momento, chega a uma porta.
Às vezes é uma porta real, com chave, corredor e luz acesa do outro lado. Às vezes é uma porta interna, dessas que ninguém vê, mas que separa com precisão cruel a pessoa que ela foi da pessoa que talvez precise se tornar.
Ficar e partir parecem escolhas opostas.
Mas nas histórias que gosto de escrever, elas quase sempre se confundem.
Partir pode ser uma forma de continuar presa. Ficar pode ser um ato de coragem. Ir embora pode ser fuga. Permanecer pode ser medo. O que define a escolha não é o movimento do corpo, e sim a verdade que a personagem aceita ou evita enquanto se move.
Uma mala pronta não significa liberdade.
Às vezes significa apenas que a personagem aprendeu a sair antes que alguém perceba o quanto ela queria ser pedida para ficar.
Esse é um tipo de conflito que me interessa porque ele não precisa de grandes vilões. A vida cotidiana já oferece antagonistas suficientes: orgulho, lembrança, culpa, expectativa, a voz de alguém que ensinou a personagem a duvidar dos próprios desejos.
No romance contemporâneo, a decisão de ficar ou partir costuma estar ligada ao amor. Mas eu gosto quando ela também fala sobre identidade. Sobre aquela pergunta que chega tarde da noite:
se eu escolher isso, quem eu deixo de ser?
E a pergunta seguinte, ainda mais difícil:
se eu não escolher, quem eu continuo fingindo ser?
Há cenas que parecem pequenas e carregam um livro inteiro. Uma mão na maçaneta. Um celular vibrando. Uma rua molhada. Uma mala que não fecha. Uma personagem parada entre a luz quente de dentro e o frio azul da cidade, percebendo que qualquer direção vai custar alguma coisa.
O drama está no preço.
Porque crescer, amar e mudar sempre exigem perda. A personagem perde uma fantasia, uma certeza, uma versão confortável de si mesma. Às vezes perde alguém. Às vezes perde apenas a desculpa que a mantinha imóvel.
Mas existe beleza nisso.
Existe beleza quando alguém entende que a vida não pode ser vivida apenas para evitar dor. Que o coração não foi feito para ser um quarto trancado. Que algumas partidas são, na verdade, o primeiro gesto de honestidade.
E algumas permanências também.
Talvez a pergunta não seja ficar ou partir.
Talvez seja: qual escolha me devolve para mim?
